Viga Mestra 4 – A Seita dos 500 – por @giandanton

por Gui Branco
em 20 de abril de 2010

O vento uivando na janela nas noites frias de inverno conta velhas histórias. Uma delas, a mais antiga e mais secreta, é sobre a criação do mundo. Conta que Deus, no início dos tempos, colocou todas as almas à sua frente e começou a dividir funções:
- Quem quer ser advogado?
Milhões e milhões de almas deram um passo à frente.
- Médicos!
Milhões se ofereceram. E isso durou um longo tempo, ao fim do qual sobraram apenas 500 almas. O criador virou-se para seu secretário e perguntou o que faltava.
- Só quadrinistas, senhor. Ninguém se ofereceu para essa função.
Dessa forma, 500 almas receberam a incumbência de, uma vez no mundo, fazer a alegria dos garotos sardentos e das figuras esquisitas.

Assim, 500 crianças nasceram rabiscando e balbuciando histórias sem nexo. Durante muito tempo não se achou função para elas e acreditava-se mesmo que não serviam para nada. Não sabiam pescar, caçar, plantar ou carregar menires. Mas acabaram sendo aproveitados aqui e ali.

Um deles foi relativamente bem-sucedido ao convencer os outros de que os desenhos feitos nas paredes das cavernas haviam influenciado em alguma coisa na caçada do bisonte. Foi o primeiro quadrinista de sucesso, e também o primeiro mentiroso. E, embora não tenha ficado rico, comeu alguns bons nacos de carne à custa do esforço dos outros.

Depois disso os quadrinistas exerceram atividades que iam da tecelaria aos menestréis.
Mas, na verdade, só se descobriu para que serviam no final do século passado. Desde então são facilmente reconhecidos na rua ou em qualquer outro lugar pelas enormes pastas que carregam embaixo do braço, no caso dos desenhistas, ou pelos óculos dependurados no pescoço e as mãos avermelhadas, no caso dos roteiristas.

Uma das dúvidas que irá certamente assaltar o leitor é: como pode haver apenas 500 almas se já existiu e existe um número bem maior de quadrinistas? A resposta, meus senhores, é que a natureza não poderia ser mais perfeita. Na falta de material humano, ela providenciou condições especiais de reencarnação aos adeptos da nona arte. Assim, quando morrem, eles renascem imediatamente, num corpo já adulto. Isso explica, por exemplo, porque certos personagens de tiras não mudam de estilo, mesmo depois que seus desenhistas titulares falecem. Dick Tracy e Principe Valente são bons exemplos desse curioso fenômeno.

Ainda assim eram poucas as almas para muito trabalho. Assim, providenciou-se para que os quadrinistas pudessem reencarnar em vários corpos ao mesmo tempo. Essa é a razão pela qual – e aqui vai a grande revelação deste artigo – todos os desenhistas da Image têm um traço exatamente igual: é a mesma alma reencarnada em vários corpos! A dúvida é se se trata da alma do Rob Liefield ou do Jim Lee.

Mas não é só isso! O Japão, por exemplo, só foi premiado com uma única alma. É por isso que todos os mangás são iguais
Maurício de Souza é outro que reencarnou em vários corpos.

Entretanto, o exemplo mais espantoso de todos é Walt Disney. Mesmo morto, ele consegue produzir milhares de revistas mensalmente, em praticamente todos os países do Globo! Isso tanto é verdade que ele mesmo assina todas as histórias, em todas as revistas. Como permanecer céptico diante de uma prova tão irrefutável da existência das 500 almas?

Há também aqueles quadrinistas preguiçosos e rebeldes, que se recusam a seguir a lei da natureza e reencarnar em mais de um corpo. Alan Moore é um exemplo desses exclusivistas.

Mas nada pode abalar a verdade suprema a respeito das 500 almas, verdade essa que sobrevive reverenciada numa seita secreta denominada A Grande e Grandiosa Ordem dos 500 Quadrinistas, por Tutatis!

Sei que corro risco de vida ao revelar segredos de uma seita tão secreta que até hoje não se havia tido notícias sobre ela. Mas, já que vim até aqui, talvez não seja de todo mal contar um pouco sobre o ritual que a ordem realiza periodicamente. O ritual não exige muitos recursos. Basta um local afastado, papel, nanquim, uma caneta, lápis, uma máquina de escrever e amendoim torrado. Alguns adeptos menos ortodoxos preferem um computador no lugar da máquina de escrever, mas o amendoim torrado é indispensável.

É claro que uma seita que reuna apenas 500 almas não tem muitas chances de se tornar um sucesso financeiro. Mas, se até aqui conseguimos enganar milhões de garotos sardentos, fazendo-os acreditar que um sujeito pode voar apenas porque usa uma roupa espalhafatosa e veio de Kripton, então talvez seja possível convencê-los a fazer depósitos na minha conta bancária…

PROVAS DA EXISTÊNCIA DA SEITA DOS 500 QUADRINISTAS:

Algumas provas de que a seita dos 500 quadrinistas existe foram colocadas em obras importantes da cultura ocidental. Confira algumas:

As letras de Monalisa multiplicadas pelo ângulo da perspectiva do cenário do quadro é igual a 500, prova de que Leonardo da Vinci era um membro da seita.

No disco Abbey Road, o número de Beatles multiplicado pela quantidade de sapatos e pelo número de músicas é igual a 500. É por isso que Paul está descalço, para que a mensagem ficasse correta…

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Material gentilmente cedido por Gian Danton. Publicado inicialmente no blog Idéias de Jeca-Tatu em julho de 2006. Escrito com uma maestria que só alguém “passado na casca do alho “como ele poderia ter!

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Esse post foi publicado de terça-feira, 20 de abril de 2010 às 10:03, e arquivado em Viga Mestra. Você pode acompanhar os comentários desse post através do feed RSS 2.0. Você pode comentar ou mandar um trackback do seu site pra cá.

3 comentários para “Viga Mestra 4 – A Seita dos 500 – por @giandanton”

  1. Caetano Neto disse:

    HUHAUHAUHAUHAUHAUHA!!!

    Espetacular! Ainda estou rindo até agora!!!

    [Reply]

  2. Luís disse:

    Hahahahahaha. Eu adicionaria café ao ritual. E ele também pode ser feito com caramelos embaré. Sério! Funciona. Texto muito legal. Vc não acham que Alan Moore pode ser um desvio e ter pelo menos uns cinco quadrinistas dentro dele e só agora os caras tentam meio que se espalharem por aí e não conseguem? Bem, foi só especulação…

    Danton deveria fazer um quadrinho sobre isso, narrando diferente momentos da história onde o quadrinistas renasceram, como eles deram passos para chegar até os quadrinhos de hoje, como o ritual se realiza e como ele foi evoluindo com o passar das eras, etc. Aposto que ia ser bem legal.

    [Reply]

  3. E temos a ilustre presença do mestre Gian Danton!

    Muito legal o texto!

    [Reply]

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