A frase no título parece uma informação óbvia, mas a mistificação que se faz em torno da arte parece distanciá-la de muitas pessoas. A idéia do senso comum de que só quem possui o “dom” é habilitado para a prática do desenho, da pintura, da música etc é uma barreira que precisa ser transposta. Eleger algumas pessoas como capazes e outras como incapazes é uma idéia sectarista, pois todos são capazes.
Aquilo que normalmente chamamos de dom, nada mais é do que um direcionamento bem aproveitado de nosso interesse, de nossa força de vontade. E é graças a essa força de vontade, aliada à prática que torna possível ao artista desenhar, pintar, interpretar um texto teatral ou tocar um instrumento.
A arte antes de tudo lida com a emoção das pessoas, mas todas as artes possuem um lado técnico, metódico, que é passível de aprendizado e aprimoramento. No caso da literatura, a arte começa com as palavras, com as regras de escrita, de construção das frases, orações. Apenas a posse do conhecimento desses aspectos da língua tornou possível que grandes escritores realizassem suas obras. José de Alencar, Machado de Assis, Carlos Drumont de Andrade eram pessoas comuns como você e eu.
A maioria das pessoas tem um conhecimento prático da língua, ou seja, sabem ler e escrever… Então o que diferencia as pessoas comuns dos grandes escritores? Interesse, força de vontade, paixão: fome de bola! Ozamu Tezuca não teria sido o mais importante autor de mangá do Japão se não tivesse força de vontade, determinação e amor à arte.
Podemos chamar a afinidade que a pessoa tem por uma arte de dom, uma certa facilidade para lidar com as características desta arte. Mas este “dom” sem a técnica, sem a prática, sem o estudo objetivo perde a força com o tempo. Algumas pessoas gostam de desenhar, outras não. Algumas pessoas gostam de futebol, outras não. Deste modo, “gostar” torna-se requisito básico para aprender e realizar bem sua tarefa seja ela jogar futebol, seja ela desenhar.
Assim como o “gostar”, outro requisito definitivo para um aprendizado sadio é o “querer”. É o “querer” aliado ao “gostar” que vai ajudar a superar as dificuldades e desafios. De posse de requisitos básicos ― aliados a interesse, força de vontade, determinação e paciência ― o “dom” se manifesta ou se aprimora. Se você quer e se você acredita nisso, então você pode!
JJ Marreiro é grande amigo do lápis, grande observador da comédia da vida, enxergando no cotidiano coisas que ninguém mais viu (Ghostbusters?)






[...] This post was mentioned on Twitter by Caetano Neto and Hcast, Germano Araujo. Germano Araujo said: RT @hcastcombr: Veja no Hcast: É possível desenhar! por @JJMarreiro http://bit.ly/aAzEEh [...]
J. J. Marreiro, muito obrigado pelo post! Esse é o tipo de explicação que a gente só encontra no Hcast!!!!
Abraço
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Acredito em tudo isso. Como estudante de letras e ex-professor de redação devo dizer que sei que todos possuem ideias e tem o que dizer, mas a prática e o estudo constante da atividade é que levam meros textos a um ponto agradável e atraente de leitura. No entanto, e nisso acredito piamente, mesmo quando eu era um formador de opiniões de secundaristas, talento é algo que existe e que está ali. Não digo isso como algo raro, todos possuem talento em algo. Afinal, Machado de Assis e Paulo Coelho entendiam seus ofícios, mas Machado era bem mais genial ao trazer textos e ideias que não existiam em nenhum caminho de Santiago e colocá-las no papel em frases e expressões que guru nenhum poderia ter pensado. Todos possuem talento. Um Einstein era talentoso em suas visões e interpretações, aquele cara que concerta seu computador e entende todos os ligantes e faz a gambiarra certa pra você usar o negócio por mais 6 meses pode não ser um Einstein, mas é talentoso o bastante pra não queimar seu computador como o primeiro técnico q vc chamou e q tem tanta prática quanto ele. Desenho é a mesma coisa. Imagino que Liefeld tinha muita prática, entendia dos mecanismos, mas não tinha o talento de um McFarlane (só pra colocar tudo na mesma época).
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Ao discutir sobre determinado tema, em primeiro lugar, gosto de recorrer ao dicionário.
dom
s. m.
1. Donativo; dádiva; benefício.
2. Prenda, talento, dote natural.
A simples definição dicionário, entretanto, não traduz o nível de discussão que essa palavra pode trazer. E, nesse ponto, eu concordo com praticamente tudo o que você discutiu. Porém, o fato de, em quase todas as ocorrências no texto, a palavra dom ter sido colocada entre aspas, denota uma forma de diminuir o significado real da mesma (e não apenas destacá-la no texto).
Não vou entrar em uma larga discussão que, para mim, foi iniciada durante o Curso de Quadrinhos à distância com Geraldo Borges. Na ocasião, em que o Geraldo utilizou argumentos semelhantes aos seus, eu cheguei a pensar que esta seria uma visão do educador, do professor. Provar ao aluno que este é capaz é um pré-requisito importantíssimo para o aprendizado. Com este seu texto, este meu pensamento praticamente se confirma. O educador tem o compromisso e a missão de educar, transmitir conhecimento, facilitar a busca pelo mesmo, etc. Mas, para mim, isso não é argumento que justifique ignorar a existência do dom, ou mesmo diminuir sua importância.
Todos são capazes de fazer qualquer coisa, mas isso não significa que poderão fazer isso de forma natural (daí o significado da palavra) em um nível que seja igual àqueles que são excepcionais. E isso não significa que essas pessoas são incapazes, elas apenas não possuem o dom. Mas, em termos científicos ou biológicos, o que é o dom? Isso eu não sei explicar. Alguém sabe?
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São palavras como essas do JJ que nos motivam cada vez mais a seguir nossos sonhos e objetivos, sou aluno do curso de desenho do Daniel Brandão, outro grande cara que sempre tem uma plavra de incentivo pro seus alunos.
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incentivo
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Reforço a fala de Quetele com um exemplo. O filme Ratatoille da Pixar fala exatamente sobre isso. Eles começam o filme, uma incrível metáfora sobre arte, dizendo que qualquer um pode ser um cozinheiro e no final o crítico corrige: um cozinheiro (ou um artista, no significado mais único da palavra) pode vir de qualquer lugar.
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Como eu costumo dizer quando me perguntam quando comecei a desenhar: “Comecei? A minha diferença pra você é que eu nunca parei!”
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Queria retomar o assunto do texto pra dizer que concordo integralmente com o que o Rafael Quetele falou sobre o Dom e seu significado como presente. O que acontece é que historicamente a existencia deste “dom” fui um argumento usado para podar a criatividade e o interesse de muitos e endeusar alguns poucos, atribuindo-lhes uma relação de agraciados divinizados.
O dom pelo prisma da psicologia é o redirecionamento, para um interesse específico, da pulsão eros-tânatos (contida na constituição psiquica) . Alguns gostam de futebol porque sua pulsão está direcionada para isto, enquanto outros se interessam por teatro porque foi ali que sentiu uma afinidade maior.
Não acredito na divinização do artista no sentido de que alguns possuem o dom e outros não, mas acho correto quando vc afirma que esta é uma posição mais confortável para quem leciona. E ainda falando nisso, a parte técnica da arte é passível de ensino, mas isto fica delicado no que tange a sensibilidade:) Me pergunto será que é possível ensinar alguém a ser sensível…ou se a questão seria descobrir a quê uma determinada pessoa é sensível. Desculpa, acabei divagando. Mas o que gostaria dizer é que: sim, o Dom é um presente. Mas tem pessoas que cuidam bem de seus presentes e tem pessoas que ignoram. Se vc tem um dom e acha que ter dom resolve tudo, vai perder o bonde da história. Tenho um amigo volalista de banda. Ele não tinha um pingo de talento, mas estudou tanto e desenvolveu tantas técnicas que hoje em dia é impossível dizer que ele não tem o Dom e um amigo meu da escola era o melhor desenhista que eu havia conecido até meus 14 anos. Ele fazia tudo no instinto, mas parou de praticar, ignorou a técnica e não alimentou o “dom”. Hoje ele ainda desenha muito bem,
mas estagnou. Fica complicado ganhar músculos se vc não faz exercícios.
Independente de chegar a uma conclusão a este respeito, o mais importante talvez seja perceber que há pontos relevantes a se considerar e refletir em todas as abordagens vistas aqui para o assunto, sejam elas semelhantes ou díspares.
Obrigado Ítalo, Luís, Raphael, Jailto e Wesley. Acho que vou pensar mais a respeito graças a riqueza da opinião de vocês. E pra turma do HCast: gente, valeu o espaço para esse papo tão legal.
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Eu gostaria de retificar apenas uma informação na apresentação no final do texto. Galera, eu não “enxergo coisas”… eu “ouço vozes”, tá? É outro departamento.
…
Parem, vozes! Parem! Eu já digitei o que vocês mandaram!
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