Viga Mestra 10 “Dogmas do Quadrinho Brasileiro : O Brasil não tem bons roteiros” por @jjmarreiro

por Gui Branco
em 1 de junho de 2010

A afirmação no título desta coluna, com o perdão da má palavra, é uma mentira deslavada! A difusão desse tipo de afirmação só presta serviço aos detratores do quadrinho brasileiro e àqueles que não tem interesse de ver um mercado brasileiro forte e sólido.

Parte das pessoas que proliferam essa afirmação se valem do argumento de que a grande maioria dos nossos artistas desenha apenas HQs escritas por autores norte-americanos e para o mercado norte-americano. Vejamos…afirmar que não temos roteiristas pelo motivo citado parece injusto com os que escrevem e lançam seus álbuns em livraria, com os que trabalham com webcomics e todos os autores independentes. Negando essa hipótese da existência de bons roteiristas em terras tupiniquins gostaria de citar apenas por alto alguns autores de põem por terra tal falácia: Gian Danton, Leo Santana, Alexandre Lobão, Wilson Viana, Fernando Lima, André Diniz, Marcelo Cassaro, Gerson Witte, Cynthia Carvalho, Alexandre Nagado, Alvimar Pires dos Anjos, Wellington Srbek…Para deixar a lista pequena é necessário ser um pouco injusto. E ainda no campo da injustiça a lista dos que considero nossos clássicos precisa ser pequena por mera otimização de espaço: José Meneses, Luiz Antônio Aguiar, Júlio Emílio Braz, Franco de Rosa, Jayme Cortez, Flávio Colin, Cláudio Seto, Gedeone Malagola, Wilde Portela e por aí vai.

Antes de afirmar que o Brasil não possui bons roteiros ou bons roteiristas vale a reflexão…A quem serve essa opinião? Ela faz sentido? Num país que ocupa 8.547.403 km2, possui 5.564 municípios e cerca de 193 milhões de habitantes, não existem bons roteiristas de quadrinhos? Isso deixa claro o fato de que a opinião de que “não existem bons roteiristas no Brasil” é uma afirmação ideológica e que serve a um propósito ideológico. Inadvertidamente levar adiante este dogma é sabotar a produção nacional.

Se não existem roteiristas brasileiros (ainda) publicando em larga escala nas grandes editoras gringas isto é reflexo de uma postura editorial de critérios e padrões a serem seguidos e não uma questão de competência. As ‘grandes’ preferem dar espaço a autores que já possuem nome e materiais publicados em suas fronteiras, convenhamos que é um critério. Apesar de alegarem que autores não-nativos tem dificuldade de entender a dinâmica das suas cidades e suas especificidades geográficas e culturais, essas editoras ignoram o fato de que histórias são acontecimentos que refletem ânimos, interesses, relações e conflitos humanos sobretudo. Ou seja, não conhecer os nomes das ruas de New York e suas esquinas é um argumento frágil para dizer um ‘não’. Além disso, conhecer esquinas e ruas é uma questão que uma rápida visita a internet ou a um manual turístico pode resolver rapidamente, novamente o ‘não’ se fragiliza. Para completar, a quantidade de títulos passados em cenários alheios a cultura do cotidiano norte-americano é grande e ocupa espaço relevante em vendas: Lanterna Verde, Nova, Surfista Prateado, Adam Strange, Conan, Pantera Negra e toda sorte de personagens cujas aventuras não se passam nas esquinas da Broadway com a Sétima Avenida.

Concluindo este tópico, é preciso pensar essas coisas gigantescas que são as editoras Marvel e DC como empresas que querem lucros… e propaganda fácil ajuda muito. Elas podem dizer os seus ‘nãos’ tranquilamente para quantos josés manés quiserem, mesmo que escrevam-lhes propostas geniais, mas dificilmente gastariam os mesmos ‘nãos’ com um escritor como Paulo Coelho, um dos mais lidos do planeta! Aliás, nem precisa ser o famoso ou badalado no nível do alquimista carioca para conseguir um ‘sim’.

Mesmo que o mercado norte-americano com toda sua pompa e toda publicidade hollywoodiana seja alvo do sonho de muitos, não é o sonho de todos. Ainda há aqueles que querem apenas ver suas histórias publicadas, ver seu material chegando às mãos dos leitores, aqueles que se preocupam apenas em contar boas histórias. Se elas puderem alcançar o Brasil inteiro, muito bom, se alcançarem todos os países de língua portuguesa, tanto melhor.

Pra encerrar, a desproporção entre a quantidade de roteiristas e desenhistas brasileiros conhecidos não justifica a inexistência de bons roteiristas no Brasil, muitos deles trabalham em material institucional ou em produtos que não veiculam seus nomes. E o fator principal desse desnível em termos de quantidade é que os desenhistas brasileiros encontram espaço em banca perfurando o caminho até o leitor via editoras estrangeiras. Os desenhistas acabam ficando mais badalados que os roteiristas pelo fascínio que a imagem provoca, e os quadrinhos são uma mídia de potência visual. Alguns dos nossos escritores de quadrinhos empenham seu talento também em outras fronteiras seja em produções para TV, jornal, revistas, livros, web. Talvez seja necessário falar mais a respeito dos nossos escritores e facilitar o acesso a seus escritos, sendo quadrinhos ou não. E por fim, mesmo que pareça bairrismo, não custa nada indicar para os amigos aquela HQ, ou aquele webcomic bem escrito que você encontrou.

JJ Marreiro além de ter publicado via fanzine e publicações, possui uma infinidade de publicações na Web, O Laboratório Espacial e o Armagem Herética.

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Esse post foi publicado de terça-feira, 1 de junho de 2010 às 11:41, e arquivado em Viga Mestra. Você pode acompanhar os comentários desse post através do feed RSS 2.0. Você pode comentar ou mandar um trackback do seu site pra cá.

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