“LER OU NÃO LER, EIS A QUESTÃO”: O USO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NA EDUCAÇÃO
Historicamente, os quadrinhos foram tratados pela sociedade como uma subliteratura, uma mídia nociva ao desenvolvimento psicológico e cognitivo de quem as consome. No Brasil, em 1928, surgiram as primeiras críticas contra os quadrinhos. Por acreditarem que os quadrinhos incutiriam hábitos estrangeiros nas crianças, a Associação Brasileira de Educadores – ABE – fez um protesto contra as HQ.
A situação piora em 1944, quando o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos – INEP – apresentou um estudo, sem muita fundamentação, mostrando que os quadrinhos provocavam “lerdeza mental”. Este estudo resultou num efeito desastroso para os quadrinhos que tiveram sua leitura proibida em muitos estabelecimentos de ensino.
Mas o pior ainda estava por vir. No ano de 1954, o psicólogo Fredric Werthan publica o livro Seduction of the innocent (Sedução dos inocentes) onde afirmava que os quadrinhos provocavam comportamentos “anormais”, tais como tendência ao crime e homossexualismo, nas crianças.
No Brasil, em consequência disso, o Senado Brasileiro em 1955, proibiu publicações e imagens consideradas “obscenas e imorais” e determinou que 50% dos quadrinhos vendidos fossem feitos por artistas nacionais. Em 1961, o Brasil cria seu “código de ética” e, em 1963, novamente o governo determina que 60% dos quadrinhos devem ter autoria nacional, o que de certa forma, foi bom para o quadrinho nacional.
Em nossos dias, contudo, não existe nenhum código ou lei que limite o conteúdo das histórias em quadrinhos e percebemos uma mudança no olhar da escola e educadores com relação a esta mídia. Em uma sociedade marcada pela globalização, novos modelos curriculares surgem oferecendo novas respostas a um complexo panorama cultural.
A escola percebeu que o currículo transcende o âmbito escolar, a educação formal, pois a formação do ser humano não acontece somente na escola. O currículo passa a ser também cultural abraçando um conjunto de informações, valores e saberes, por intermédio de produtos culturais que atravessam o cotidiano dos indivíduos e interferem em suas formas de aprender, de ver, de pensar, de sentir.
Desta forma, a proposta de currículo que aparece na contemporaneidade compreende todo o conhecimento na medida em que este se compõe num sistema de significado, cultural e vinculado a questões de poder, abrindo precedentes para a compreensão de que instâncias como museus, cinema, televisão, histórias em quadrinhos, músicas, shows, entre outros, sejam considerados como instâncias culturais capazes de formar identidade e subjetividade.
A maioria dos estudos realizados no campo educacional esteve por muito tempo voltado para a instituição escolar como espaço privilegiado de operacionalização da pedagogia e do currículo. Hoje, entretanto, torna-se imprescindível voltar à atenção para outros espaços que estão funcionando como produtores de conhecimentos e saberes, e as histórias em quadrinhos são um desses exemplos.
As histórias em quadrinhos representam hoje um meio de comunicação de massa de grande penetração popular. Elas transmitem ao leitor (aluno) conceitos, modos de vida, visões de mundo e informações científicas. Trazem temáticas que têm condições de serem compreendidas por qualquer estudante, sem a necessidade de um conhecimento anterior específico ou familiaridade com o tema. As estratégias de divulgação que elas usam apresentam grande potencial por uma série de razões, entre elas: o preço, a popularidade do meio, a sua linguagem, cujos signos são facilmente decodificáveis por diversas etnias, e o fato dos quadrinhos estarem já associados ao divertimento, que diminui a aversão que o leitor costuma ter a estratégias de divulgação.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB e os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN sugerem a utilização das histórias em quadrinhos como recurso didático-pedagógico. Segundo estes documentos, nas histórias em quadrinhos, as crianças conseguem deduzir o significado da história, que não são capazes ainda de ler diretamente, observando a imagem.
Algumas editoras de livros paradidáticos perceberam a eficácia das histórias em quadrinhos como recurso que proporciona uma aprendizagem prazerosa e dinâmica. A editora do Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas – IBEP, com as séries de Julierme de Abreu e Castro, geógrafo e historiador (1931-1983), publica já na década de 60 os primeiros quadrinhos com objetivos paradidáticos ou didáticos. O primeiro livro é de 1967, de geografia e, em 1968, foram lançados os livros de história.
Desde então podemos citar várias obras que tinham como objetivo utilizar da linguagem dos quadrinhos com fins pedagógicos. Temos, por exemplo, A guerra holandesa, em 1942, pela Editora Brasil-América Limitada – EBAL; clássicos da literatura, como O guarani e Casa grande e senzala, também pela EBAL; em 1980, o Centro de Estudos do Trabalho – CET editou a coleção Cadernos do CET, que continha temas como a reforma agrária, constituinte, etc; em 1988, o PROCON distribuiu gratuitamente o gibi Loteamento, sobre contratos de loteamentos e procedimentos em cartório; em 1985, temos o clássico Guerra dos Farrapos pela L&P; em 1990, Ziraldo publica Chega de enchentes, um gibi distribuído nas favelas do Rio de Janeiro que ensinava como evitar enchentes e deslizamentos de terra nos meses de verão; em 1991, Sérgio Ribeiro Lemos publicou o gibi Bigail: vamos à luta pelos nossos direitos, onde os artigos do Estatuto do menor e do adolescente foi quadrinizado; em 1999, a prefeitura de São Paulo distribuiu o gibi As aventuras de Caetaninho, onde ensina como combater as pichações; entre outras iniciativas que poderíamos ainda citar.
O primordial é perceber a importância e a riqueza das histórias em quadrinhos, estando sensíveis ao caráter lúdico dessas publicações, suas histórias recheadas de aventuras e situações cômicas, a contextualização histórica, a linguagem, a geografia, a fauna e a flora dos locais referidos e até mesmo os hábitos e costumes que podem ser facilmente apreendidos pelo aluno.
É preciso que os educadores estejam, cada vez mais, abertos a estes recursos, para novas compreensões, sem preconceitos, sabendo incorporar e transcender os conhecimentos que surgem da racionalidade técnica. Uma abertura para a aceitação não pelo simples consentimento, mas pela concordância coerente, refletida, praticada. Desta forma, serão capazes não só de utilizarem as histórias em quadrinhos como recurso didático, mas de todas as novas mídias e tecnologias de comunicação e informação.
Cláudia Sales de Alcântara é Mestre e doutoranda em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará e gentilmente nos cedeu esse excelente texto.






Excelente texto, rico em detalhes e com bastante informação. A utilização de histórias em quadrinhos é uma forma eficiente de fazer com que as crianças tenham acesso a determinadas informações e conhecimento que teriam de buscar em livros pouco atrativos. Não é a toa que a grande maioria de livros infantis possuem ilustrações. Mas, é importante ter em mente que não basta apenas incluir páginas e mais páginas com desenhos de qualidade questionável e com balões de diálogo repletos de textos fracos e “sem graça” que tentam “empurrar” o conteúdo. O principal objetivo de uma revista em quadrinhos é contar uma história. A qualidade dos desenhos não é algo essencial, mas deve ser adequada ao que se deseja contar e ao público que deseja atingir. As crianças não precisam apenas de quadrinhos que sirvam de “manuais de boas práticas”. Precisam também de quadrinhos que contem histórias com as quais elas se identifiquem e possam extrair experiências na dose adequada para seu aprendizado (e divirtam-se com isso).
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4 de dezembro (2010) 16horas: reunião do Fórum de quadrinhos do Ceará. Vocês estão convidados para deliberar sobre novos espaços e opções para os quadrinhos no estado e para trocar idéias sobre as próximas ações do grupo que representa a comunidade de quadrinhos junto ao poder público no Ceará.
Dia 04 de dezembro. 16 horas na Gibiteca de Fortaleza! EStão todos convidados!
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[...] contribuição ao Manicomics. Se não me engano, o Lene também desenhou uma ótima história da Cláudia Sales ainda por esse período. Ironias do destino, da mesma forma do Happy Tree Friends, o Lene despontou [...]
ótima matéria . valeu
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