Review 17 – “Xampu” por @rogercruzbr

por Gui Branco
em 13 de agosto de 2010
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Aproveitando a deixa que estamos aqui em Sampa, aquecendo os tamborins pro lançamento da MSP+50, o review – que conta com uma entrevista exclusiva do Hcast – de hoje será com um dos artistas do álbum, o SeNacional Roger Cruz em seu trabalho mais recente, o

Xampu, Lovely Losers

O que é:
É difícil rotular. O que no começo aparenta ser a história de 4 adolescentes que dividem o mesmo apartamento em São Paulo no que aparenta ser as décadas de 80 e 90, vai a cada página se tornando algo mais e mais complexo. Só lendo mesmo pra entender.

O que é bom:
Esse é outro ponto de difícil definição. A arte está simplesmente perfeita, com todo o cuidado e carinho que só um projeto autoral tem.

O roteiro é outra preciosidade. Na entrevista, vocês vão ver que parte da história é realmente autobiográfica, o que facilita a identificação com o leitor.

Mas, se eu tiver que escolher somente uma qualidade pra obra, eu destacaria a narrativa. Existem obras que prendem o leitor pela ansiedade, pela curiosidade pelo próximo capítulo – se você já leu Os Supremos, O Código Da Vinci ou assistiu True Blood, já sabe do que eu estou falando. Porém, esse não é o caso de Xampu.

A HQ prende a sua atenção sem que você fique querendo pular páginas pra saber o que vai acontecer, e isso é culpa de uma narrativa visual extremamente fluida. Você não para de ler simplesmente por nem perceber que está lendo. Quando você dá fé, Lovely Losers acabou, e ai sim fica o gosto de quero mais.

O que melhorar:
Sinceramente, o Caetano até colocou ai no bate-papo a possibilidade ou não da continuação vir aquarelada. Eu acho que não casa com o clima da obra. A única coisa que me vem a cabeça é a continuação dela. Tomara que venha logo!

E fique com um bate-bola com o autor! (Valeu Roger!)

—- Começo da carreira

No tempo que você assinava como Rock, como era a parte da coleta de referências?
Na época que assinava como RoCK a minha produção era mais experimental e underground. Minhas influências eram Angeli, Bukowski, Henry Miller, irmãos Hernandez e muito material underground.

Minha intenção era colaborar com revistas com a Animal e Chiclete com Banana. Publiquei na revista Mil Perigos e Porrada que tinham formatos parecidos com essas.

Mas esses trabalhos não pagavam as contas e, fazia de vez em quando, letreiramento de HQs para a editora Abril através de alguns estúdios.

Eram poucas as editoras que publicavam HQs autorais. E quando se descobria alguma, ou já estavam com os colaboradores definidos ou já estavam parando de publicar depois de algumas edições.

—- Começo na Marvel

Essa é a de praxe (hehehe), como foi a emoção de trabalhar pra Marvel? Alguma história engraçada?
Eu caí de para-quedas no mercado americano. Minha intenção não era fazer HQs de super-heróis. As primeiras páginas que levei como amostras eram páginas com um estilo meio Al Columbia. Bem estilizadas e com bastante preto. Um traço que funcionaria melhor para a linha Vertigo. O meu agente disse que era um traço bem difícil de vender e me pediu amostras com estilo super-heróis, com o estilo mais dinâmico dos quadrinhos daquela época.

Fazia muito tempo que não via uma revista de super-heróis e fui até a casa de um amigo que também estava produzindo amostras e ele me mostrou o trabalho do Jim Lee em X-Men. Ele me emprestou algumas revistas e tentei fazer algo parecido com aquilo. Fiz duas páginas. Uma com X-Men e WildC.A.T.s e a outra não me lembro.

O meu agente adorou as páginas e enviou cópias por fax para alguns editores e recebemos resposta positiva em 1 ou 2 dias. Acho que fui o artista a pegar trabalho mais rápido e com o menor número de amostras.

Fiz uma edição para uma editora pequena e logo veio proposta da Marvel para fazer HyperKind. Depois Ghost Rider, Hulk e finalmente Uncanny X-Men. Mas eu não tinha a menor noção do que era o mercado americano de hqs. Considerava aquele apenas mais um trabalho que pagaria as contas. Que seria melhor do que fazer letreiramento para a editora Abril.

Foi durante o processo, enquanto fazia as primeiras edições, é que fui percebendo o tamanho do mercado, a importância de estar trabalhando com aqueles personagens e com a Marvel. A Morte da Fênix tinha sido a última revista de X-Men que li antes de começar a trabalhar para a Marvel.

Eu li super-heróis a minha infância toda. Conhecia bem o gênero. Mas durante a adolescência, frequentando a livraria Muito Prazer no centro de São Paulo, descobri os quadrinhos europeus, a Chiclete com Banana, Heavy Metal, Fierro e muitos outros gêneros de HQ.

Resumindo, não era exatamente o que eu queria fazer mas sabia fazer. Não foi tão emocionante porque eu apanhava dos prazos diariamente. O stress era enorme o tempo todo. Dormia poucas horas por dia torcendo para o telefone não tocar. Em muitas ocasiões, eu e outros desenhistas com trabalho atrasado íamos dormir no Artcomics para acelerar o processo de aprovação e envio das páginas.

Isso quer dizer, xerocar no papel A4 a página pronta, enviar por fax, esperar outro fax com correções ou com a aprovação, chamar o Fedex e enviar as páginas que chegariam lá 1 ou 2 dias depois para serem arte-finalizadas.

Éramos um bando de moleques sem experiência e inseguros com tanta responsabilidade. Eram semanas vivendo de pizza com refrigerante e café com 6 ou 7 artistas revezando um beliche e um colchão extra. Não tenho saudade dessa época, não.

E assim foram os primeiros anos de produção para o mercado americano.

—- Fase atual: Marvel

O próximo filme dos X-Men vai ter a mesma temática que seu título. Os produtores do filme tiveram alguma conversa com você e o roteirista?
Não. Nunca fui consultado e não esperava mesmo que isso fosse acontecer. Não sei se o roteirista foi consultado. Acho que o filme será um produto sem relação com a hq.

Houve alguma diferença por parte da Marvel a respeito disso?, Tipo mais cobrança no título, mais gente metendo o bedelho…. algo assim?
Quando veio a notícia sobre o filme eu já estava afastado do trabalho para a Marvel.

—– Fase atual: Xampu

É impressionante olhar os extras e ver a diversidade de arte-final e uma variância no estilo. Existiu algum desenho em específico que você soube que aquele seria o estilo e arte-final do Álbum?
Entre todos aqueles estudos, penso que apenas dois tem semelhança com o estilo adotado nas hqs. Na verdade, o traço surgiu enquanto desenhava as páginas.

O engraçado é que o traço, o estilo do desenho surgiu quando mudei a posição da cadeira, a altura da mesa, a maneira de segurar o lápis, o tipo de lápis (grafite Pentel 4B), a posição do papel e o tipo de papel. Fiz todas as páginas em papel sulfite A4 90 gramas Chamex e finalizei apenas com bicos de pena. Em cada folha fiz uma tira das 3 tiras de cada página.

Optei pelas penas por serem as ferramentas com as quais tenho menor intimidade. Assim conseguiria deixar a linha mais suja.
Desenhei quase todo o álbum em 2 semanas. A arte-final levou mais tempo. Entre dois ou dois meses e meio. Depois mais um mês para montar, letreirar, diagramar e fazer a capa.

Pra quem acompanha a sua carreira, já viu Xampu ser citado como um projeto há um bom tempo. Como é a sensação de depois de tanto tempo ver Lovely Losers nas bancas?
Os compromissos profissionais e financeiros adiaram bastante a produção do álbum. Só consegui finalizá-lo porque pedi férias por tempo indeterminado do trabalho para a Marvel. O que me deixa realmente feliz é poder dialogar com quem leu. Fazer isso em português. Saber que existe uma identificação do leitor com as hqs, com os cenários, com os personagens. Têm sido ótimo receber mensagens ou encontrar alguém que leu. O trabalho para a Marvel é feito para um público que está muito distante e que vive uma outra realidade.

Ler Xampu passa a impressão de que é um projeto muito pessoal, quanto da obra foi baseado em fatos reais e quanto é autobiográfico?
Eu pretendia mesmo não deixar clara a distinção entre realidade e ficção. A maioria dos personagens é uma combinação de características físicas e comportamentais de várias pessoas que conheci. Alguns eventos realmente aconteceram mas adicionei situações e personagens que não estavam lá para criar um cenário exagerado.

Tentei deixar os personagens livres para seguir caminhos que fossem lógicos ou inevitáveis e tentei não julgá-los para que não refletissem o meu modo de pensar e agir. Mesmo porque, quando escrevi as histórias, já não pensava como pensava na época. Os pontos de vista e prioridades já eram diferentes.

O trabalho com tipografia está fabuloso, você já teve algum contato com design tipográfico/letreiramento?
Muito obrigado. Aprendi um pouco sobre tipografia quando trabalhei em agências de publicidade. Na época, muita coisa era feita à mão, usando régua, esquadro e curva francesa.

Depois usei essa experiência fazendo títulos das HQs que letreirava para a editora Abril. Esse foi o meu primeiro emprego com HQs.
Todos os títulos no Xampu foram feitos à mão usando régua, esquadro e curva francesa e foram baseados em logos de capas de discos e de bandas da época.

—- Futuro

Xampu vai ser uma trilogia? A temática do próximo álbum já está definida? Já existe algum material pronto?
Vai ser uma trilogia mas pretendo intercalar os próximos com outros projetos que já estou produzindo. Já tenho algumas histórias escritas e os temas já estão definidos já há bastante tempo. O que está sendo difícil é achar tempo para fazer o trabalho que paga as contas e as HQs autorais.

Será que existe o risco de ser colorido com aquarela no estilo que vemos no seu blog?
Ainda penso em fazer uma HQ toda aquarelada, mas não sei se será um dos próximos álbuns do Xampu.
Mas o estilo do desenho vai sim seguir por essa direção que tenho mostrado no blog.

E GUTIGUTZ, alguma previsão?

Gutigutz está na gaveta por enquanto porque surgiu uma ideia mais urgente que pretendo lançar ainda neste ano. Agora preciso produzir porque a ideia já passou das 60 páginas.

E na Marvel? Alguma surpresa?
É bem provável que eu não continue o trabalho com a Marvel. O meu traço está mudando e estou gostando dessa nova direção. Alguns estudos podem ser vistos no meu blog. Já mostrei esse novo estilo e eles não gostaram. Como eu não pretendo voltar a fazer o que fazia no (X-Men) First Class, estamos negociando o cancelamento do contrato.

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Esse post foi publicado de sexta-feira, 13 de agosto de 2010 às 9:21, e arquivado em Reviews. Você pode acompanhar os comentários desse post através do feed RSS 2.0. Você pode comentar ou mandar um trackback do seu site pra cá.

2 comentários para “Review 17 – “Xampu” por @rogercruzbr”

  1. [...] deixe de conferir e comentar o Review de Xampu e entrevista exclusiva com o Roger Cruz aqui no [...]

  2. Raphael Quetelle disse:

    Muito bacanas tanto a review como a entrevista! Interessante demais conhecer a história de alguém que trabalhou muito, conseguiu importantes trabalhos e que está em um nível técnico e artístico tão elevado que pode até escolher seus trabalhos, abrir mão de alguns e fazer aquilo que gosta e do jeito que gosta. Parabéns ao Hcast pela entrevista!

    [Reply]

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