Vamos falar de quadrinhos?
O quadrinho brasileiro é um velho ranzinza, chato, caquético e sem perspectivas de melhoras. Ele ainda tem muito vigor, mas não se esforça em ser agradável e ainda reclama que os outros é que não entendem nada de quadrinhos.
Típico excêntrico.
Muito já se falou sobre a decadência dos quadrinhos no Brasil, que somos atrasados, que somos preguiçosos e que não há mercado. Muito se fala sobre a população que não tem cultura, que prefere o que vem de fora do país, culpam o governo por não dar incentivos financeiros ou ainda por não incentivar a leitura desse tipo à população.
Eu discordo, simples assim.
Não que realmente não exista isso tudo no país, mas reclamar disso não adianta muito, o buraco é mais embaixo.
E o problema maior é querer fazer um quadrinho melhor ainda, mais bem desenhado, melhores roteiros e algum plano mirabolante de divulgação e distribuição… Vamos fazer o simples.
É difícil, claro. Se fazer o simples fosse fácil já teriam composto outro “Parabéns pra você”.
E o que quero falar aqui é como o quadrinho brasileiro atual é pretensioso e arrogante, não em relação à concorrência internacional e sim com o público. Tirando o Mauricio de Sousa todos os outros quadrinistas do Brasil buscam obras diferentes, sofisticadas, complexas…
Chatas pra caralho!
Desculpem o linguajar, mas quando vejo gente falando que a culpa do mercado brasileiro de quadrinhos estar definhando é dos profissionais ou do público fico um tanto desgostoso. Estão querendo dizer que o público tem que se adequar à linguagem alienada de pessoas diferentes, limitadas num universo de artistas sem comprometimento com quem não tem acesso à informação.
Sim, parte da culpa é dos profissionais engessados e acomodados, mas o público NUNCA pode receber a culpa e se pensarmos um pouco veremos que é natural os quadrinhos no Brasil serem apenas para um pequeno nicho de abastados e com interesses completamente diferente do resto da nação.
Mauricio de Sousa é popular exatamente por enxergar isso, faz histórias maravilhosas de maneira leve, universal. Fazer isso é o que o diferencia e é esse tipo de coisa que o público precisa. Eles até se interessam por quadrinhos, mas não se identificam com a linguagem elitizada, os assuntos distantes e piadas tão sutis que não entendem. E quando entendem não acham graça.
E esse é o erro de pessoas que não descem do pedestal de intelectual para entender a linguagem atual. Faço quadrinhos na internet e meu público varia muito de perfil, mas nenhum deles quer discutir sobre ficção nerd ou ainda sobre a postura política no fim dos anos 60, isso é assunto para as rodas de bar e grêmios estudantis, o mercado quer que a tarefa de ler uma revista em quadrinhos seja fácil, não um fardo.
É pegar uma tirinha, rir despretensioso e continuar a vida. Ele ainda pode fazer uma reflexão sobre o assunto e formar uma opinião, discutir isso com amigos no bar ou no trabalho e quando percebermos os quadrinhos estarão gerando INCLUSÃO de público, não exclusão.
Percebi isso quando vi que minha família se interessa pelas minhas tirinhas, mas nem sempre entendem o assunto e eu, ignorante, achando que o erro estava neles.
Mas quando eu falo e o outro não entende o burro sou eu. E se eu quiser fazer algo que atinja pessoas comuns, no seu cotidiano, então tenho que popularizar meu trabalho.
Podemos listar vários artistas competentes que tem uma linguagem mais sofisticada, feita para pessoas que tem o costume de ler o jornal no café da manhã, longe do grande público simplesmente por achar que o público é que deve mudar de perfil.
O Mauricio faz o contrário, ele ouve o público, sente as expectativas e então trabalha o produto para satisfazer essa demanda, vimos isso com a Turma da Mônica Jovem.
Então o público está aí, sedento por quadrinhos, mas enquanto os artistas se acharem mais importantes que o público, querendo impor suas vontades e manias, não teremos êxito. Precisamos fazer histórias fáceis de entender, de absorver, facilitar o acesso do público com obras baratas, gratuitas ou até online e parar de reclamar que o povo não consome.
Porque o povo consome o que quiser e se quisermos fazer parte do mercado temos que saber exatamente o que é que ele quer.
Rafael Marçal é o autor do Profeticos, uma aula de inteligência e sagacidade.






Belo texto! Infelizmente, enquanto o público não tiver o interesse pela leitura, qualquer tentativa, por mais nobre que seja, será frustada. O incentivo a leitura deve partir de casa, das escolas, de todo lugar. Não espero que todos leiam quadrinhos como eu faço, passando vários segundos (ou até minutos) em cada página. Espero que pelo menos as pessoas passem a valorizar tanto o que escrito nos balões como o que está fora deles. Além disso, é fácil falar que uma obra (qualquer que seja) é um “lixo” quando não se sabe a dificuldade que o artista teve de fazê-la ou quais foram as suas limitações (prazo, orçamento, etc). Para avaliar e apreciar o trabalho de alguém é preciso, no mínimo, ter respeito pelo ser humano.
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É um problema. Temos que sair um pouco do ego e pensarmos no geral.
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Parabéns pelo texto Gui, concordo plenamente. Nunca fui muito chegado em tiras. Angeli, Laerte, Glauco essa galera. Reconheço o trabalho, sei que tem seu valor, mas sempre pensei que eles não eram como o Maurício, não tinham preocupação em criar um mercado. E eles são mega admirados, e várias pessoas seguem essa tendência. Não está errado, mas realmente deveria haver uma mudança no pensamento dos nossos produtores.
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Estudei Letras.Na faculdade, li quadrinhos dos contos de Edgar Allan Poe e sempre me perguntei pq não tinhamos a mesma coisa com a literatura brasileira. Acho que muitos quadrinhos nacionais (Retiro desse bolo todas as tirinhas como Angeli, Laerte e outros contemporaneos) são recortes de histórias manjadas com um pano de fundo brasileiro. Macunaíma (não me venha com a pornochanchada) por exemplo é uma ótima história de mitologia que podia ser roteriada para os quadrinhos.
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Rafael, quando o discurso do profissional de quadrinhos é colocar o seu trabalho na banca, acho que vale tudo que você está falando. É primordial que ele seja acessível ao grande público, que prefere diversão simples e rápida.
Mas ao mesmo tempo acho que o quadrinho que você critica (que, corrija-me se eu estiver errado, parecem ser os chamados autorais) também tem seu espaço e seu público (principalmente em livrarias, o que me parece ser uma tendência). É importante que haja tanto o acessível quanto aqueles que tentam quebrar o convencional (mesmo que falhem miseravelmente tentando). Já se imaginou num mundo onde os filmes de cinema fossem apenas “blockbusters”? Os programas de TV apenas novelas? E outra: muito do que é sucesso comercial hoje depende do que foi “experimental” há dez anos atrás.
É difícil dizer qual é o problema do quadrinho nacional, mas acho que vivemos um momento de abertura do mercado de leitores. Se a nossa tendência é acompanhar o mercado norte-americano, ou mesmo o exemplo do Maurício de Sousa, na minha opinião, temos ótimos profissionais e boas obras circulando, só faltam agora “empregadores” dispostos, ou seja, editoras suficientes para absorver a quantidade de profissionais que dispomos no mercado. E isso não é um problema brasileiro. Estive na Argentina, e fora a Mafalda (a “Mônica brasileira”) os únicos trabalhos argentinos a disposição eram títulos mais “underground”, encadernados em livrarias. E tem público para todos os gêneros, afinal, levando em consideração as devidas proporções, um quadrinho da Mônica vende tão bem quanto uma edição de Sandman. Falta apenas o seguinte alinhamento de planetas: um autor brasileiro criar o seu “Sandman” e encontrar uma editora disposta a encarar a loucura de publicá-lo e dar o devido esforço de divulgação.
No mais, parabéns pelo texto e por expor sua opinião tão bem.
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Rafael Marçal Reply:
maio 8th, 2011 at 21:22
Zé Wellington, concordo com você. Não quis criticar os autorais, tanto que pretendo lançar o meu em breve.
Meu foco era os que fazem autorais diferentões e reclamam que o grande público não consome.
O negócio é ter foco =)
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(caralho, como ficou grande meu comentário…)
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Genial. Pode colocar aí teatro, literatura e o cinema até outro dia desses que suas afirmações funcionam. Claro que o artista deve se expressar por vários estilos, mas deveria lembrar se está mesmo compartilhando uma experiência através de sua obra e o quanto, antes de simplesmente subestimar o público por seu desinteresse.
Não se pode julgar a falta de compreensão de alguém com quem não se está falando.
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